terça-feira, 12 de outubro de 2010

Aos Pássaros Não Escrevo

Aos pássaros não escrevo.
Não que não queira,
É que pouco os vejo livres.
Só engaiolados.

Aos pássaros não escrevo.
Da infância pouca memória tenho,
Daqueles que ainda voavam.

Aos pássaros não escrevo.
Não merecem minha escrita triste
Já que seu canto de núpcia
Se deprime na jaula que vivem.

Aos pássaros não escrevo.
Não que não consiga,
É que me faltam palavras.

Aos pássaros não escrevo.
Penso que merecem mais;
Mas protesto meu,
Hoje de pouco vale.

Aos pássaros não escrevo.
Tento entendê-los: Aflitos, acuados, com medo
Até mesmo de serem livres.

Aos pássaros não escrevo;
Nem às arapucas e queimadas,
Estilingues e espingardas,
Alçapões ou qualquer armadilha.

domingo, 10 de outubro de 2010

Sonho Meu

Nada que sei que sou bem
Tudo que sei que nem sou
Aquilo que jamais serei
Reflete o que eu tentei ser

Se tudo que jamais será
É nunca que nunca vai ser
E sabe que tem de existir
Porque nunca vou desistir

Sempre será o que não quis
Querer o que sempre não foi
Pensar que um dia seria
Fez ser pensamento que tem

Isso que imaginou
Real pra quem vê nunca foi
Só sente que sempre existiu
Quem sonhou o que nunca foi

- Nunca foi?
- Foi!

Só sabe que um dia existiu
Aquele que já se feriu
Se nunca o fez a si mesmo
Alguém ou a alguém o já fez

Chora porque ainda demora
Pensamento que não vai embora
Não sabe se sonha o que vive
Não sabe se vive o que sonha

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Sentimenticídio

Eu vejo tudo escrito
Nos pregos que o faquir se deita
Encima das cabeças
De quem se ignora.
Com repulsa ao outro
E ojeriza ao mundo
Não se sabem nem se vêem,
Só se deprimem
Morrendo todo dia mais um pouco.

A esse cotidiano batizei suicídio:
Sentimenticídio.

- Sol?
- Lua?
- Estrelas?
- Isso existe ainda?

O que falta é desfibrilador
Pra que o coração do mundo
Volte a girar.
Não mais: fibrilado.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Índia

Os cabelos negros lisos
Postos sobre o ombro.
Sorriso simples que diminui o olho
E aumenta a bochecha.

A pele é cor de jambo
Das mais bonitas entre o branco e o mulato.

Como que dois rabiscos negros
Sobrancelhas finas acima dos olhos puxados
Pelo sorriso.
Íris de jabuticaba que se confunde com a pupila
Dá um brilho aos olhos que a luz refletem.

A marca da felicidade
Está na curva desenhada do nariz à boca.
E a natureza presente
No fundo dessa fotografia limpa.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Ana Banana

Serra mata mato verde
Terra lama chuva cheiro
Em ti.

Verde-ser alado
Vem me enverdecer
Com esse amor de clorofila
Fotossíntese-me.

Aga-dois-ó-mais-cê-ó-dois
Floema entorpecido
Xilema alumiado
Sol!

Palíndromo que se diz:
Ana banana - flambada
Com canela

Tamarindo meu.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Sonhou A Vida Que Tanto Queria (Amélie)

Falou pra ela do amor dele.
Contou a ele que ela o queria.
E se beijaram como se soubessem.

Viajou na foto que o mostraria.
Sentiu a imagem que tanto queria.
As malas fez e se libertou.

Correu na tinta que observava.
O olhar ao longe que o conturbava
E no copo d'água viu a quem amava.

Filmou o dia que o viu sorrir.
Mandou as cartas que tão esperadas
Bateram à porta de quem esperava.

Mudou a vida de quem não vivia.
Cantou o riso de quem não sorria.
Sonhou o mundo que não merecia.

Cansou da vida que nunca levava.
Saltou do quarto que a aprisionava
Beijou a boca que tanto a chamara.

Chegou por fim aonde queria
Pagou sem preço por todos que via.
Viveu feliz com alheia alegria,
Enfim.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Recém Nascido

De onde me vejo
Sei que não falta muito.
Sinto-me na terceira pessoa.
Meu corpo é casca
Que nasceu velha
E morrerá jovem.
Dentro dele já não me cabe.

Daqui de cima
Fica claro o tabuleiro,
As peças se movendo
Sem saber, perceber.
Não se sabem nem se conhecem.
Vejo as cascas vivas
Corpos
Mortos vivos.

Com meus pensamentos sou.
Aqui só os sinto.
Nesse velório intermitente
Esperamos que os defuntos se levantem.
Renunciem seus nomes;
Enfim, possam nascer.

De onde me vejo
Sei que não falta muito.
Porque aprendi a respirar.